quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A imagem e a escrita ao longo da história

A imagem sempre foi um dos principais meios de comunicação na história da humanidade, ainda que por longo período a escrita a tenha sobrepujado em importância. Nos dias atuais ganhou grande destaque, em especial com o advento da Internet e a difusão da comunicação global, em virtude da hipermidiação, que consiste na combinação da informação em suas múltiplas dimensões: texto, imagem e áudio.

A invenção da fotografia, ocorrida no período da Revolução Industrial, permitiu, desde o seu surgimento, uma expansão gradativa na produção e no uso de imagens, primeiramente de forma mais seletiva e quase individual e, posteriormente, de maneira mais massificada, com as ilustrações fotográficas em jornais e revistas e o uso de imagens em mídias publicitárias.

A fotografia é cópia de um referente, ou seja, de algo ou de alguém - pessoa, objeto, paisagem, animal, acontecimento etc. - reproduzido como imagem. No mundo da representação fotográfica, o referente é uma primeira realidade, e a imagem é uma segunda realidade. Esta última quase sempre sobrevive à primeira, pois, como documento, pode existir por muitos anos após o desaparecimento - morte ou destruição - de seu referente. A imagem fotográfica é polissêmica por natureza, passível de inúmeros significados. Possui um sentido denotativo representado de modo literal por aquilo que se vê registrado em seu suporte físico, e um sentido conotativo que corresponde à sua polissemia.
Para ser utilizada, a imagem fotográfica deve ser organizada, o que implica análise e tematização de seu conteúdo, indexação, armazenamento e recuperação.

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A história da humanidade foi e ainda é marcada pela presença da imagem como um dos principais mecanismos de comunicação entre os homens, que a utilizaram na forma dos mais variados suportes e técnicas, tais como "madeira, pedras, argila, osso, couro, materiais orgânicos em geral, metais, papéis, acetatos, suportes digitais, [...] desenho, pintura, escultura, fotografia, cinema, televisão, web [...]" (RAMOS, 2007, p. 1).

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Desde a pré-história, as imagens fizeram parte das relações entre os homens e, mesmo após a invenção da escrita, continuaram a ser fundamentais na comunicação humana. Os povos antigos comunicavam muitos de seus conhecimentos valendo-se de imagens, principalmente porque a maior parte das populações não dominava "os mistérios" da escrita. Ler e escrever era privilégio de poucos e sinônimo de certa distinção social. Funcionários (na maioria das vezes de origem plebéia) "incumbidos de ler e escrever gozavam de respeito e distinção" (COSTA, 2005, p. 18). Na Idade Média o monopólio da leitura e da escrita era reivindicado pela Igreja, que tinha nas bibliotecas dos mosteiros verdadeiros "exércitos de copistas". Mas a grande massa populacional continuava iletrada e dependente das imagens.
Segundo Manguel (2006, p. 143),

No século VI, o Papa Gregório, o Grande, havia declarado: 'uma coisa é adorar um quadro, outra é aprender em profundidade, por meio dos quadros, uma história venerável. Pois aquilo que a escrita torna presente para o leitor, as pinturas tornam presente para os iletrados, para aqueles que só percebem visualmente, porque nas imagens os ignorantes vêem a história que devem seguir, e aqueles que não conhecem o alfabeto descobrem que podem, de certa maneira, ler. Portanto, especialmente para o povo comum, as pinturas são o equivalente da leitura'.
A invenção da imprensa permitiu que mais pessoas pudessem ter acesso aos livros e à leitura e, nesse contexto, embora a imagem continuasse a exercer seu papel - inclusive como ilustração de muitos livros -, a escrita passou a dominar os meios de transmissão de conhecimento existentes, minimizando o significado da imagem. A educação e a ciência passaram a basear-se no texto escrito. Somente no início do século XIX, com a expansão do capitalismo - que exigia que povos com diferentes idiomas se expressassem de uma maneira comum -, a imagem foi retomada como meio de comunicação. Os jornais começaram a ilustrar suas matérias, primeiro lentamente, pois seus proprietários tinham receio da reação negativa dos leitores. Iniciou-se então um novo processo de convivência texto-imagem.

O século XX foi marcado pelo desenvolvimento de tecnologias e idéias que levaram à maior compreensão da imagem e de sua importância não só como meio de comunicação, mas como auxiliar significativo para as tarefas de pesquisa e ensino. A imagem deixou de ser apenas arte e transformou-se em informação e conhecimento. Expandiu-se por meio de jornais, revistas científicas e de entretenimento, televisão e fotografia. As novas tecnologias computacionais desenvolveram maiores possibilidades de produção e uso de imagens, permitindo uma hipermidiação com outros modos de comunicação.

No século XXI, "o universalismo da linguagem visual aparece como uma possibilidade de se alcançar um maior número de pessoas, rompendo-se as fronteiras do nacionalismo: fotos, filmes e programas de TV unem audiências do mundo todo sob as mesmas mensagens." (COSTA, 2005, p. 36). A comunicação extensiva (MIRANDA; SIMEÃO, 2003), através da computação, que faz uso do hipertexto, acelerou a hipermidiação principiada em fins do século XX e aumentou maciçamente o uso de imagens.

Imagens que aparecem de diversas formas, ora como ilustrações que são acrescidas às informações da escritura alfabética do hipertexto, ora como mapas criados pelos autores de hipertextos que auxiliam os navegantes a se localizarem nos mares abertos e infinitos da informação. (RIBEIRO, 2007, p. 1).

Existe uma quantidade incalculável de imagens sendoproduzida atualmente e colocada ao alcance do público. É preciso aprender a pensar por meio delas usando-as de maneira adequada para os fins a que se destinam.
A criação de imagens vincula-se a uma causa ou a um fim específico, seja ele religioso, político, ideológico, publicitário, educacional, informacional, ilustrativo, artístico etc., sempre com uma ligação às características sociais, culturais, religiosas, econômicas etc. de cada sociedade ou grupo.

RODRIGUES, Ricardo Crisafulli. Análise e tematização da imagem fotográfica. Ci. Inf. [online]. 2007, vol.36, n.3, pp. 67-76.

Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-19652007000300008&script=sci_arttext&tlng=es Acessado em: 15 set. 2010

sábado, 4 de setembro de 2010

Cinco Sentidos

A fotografia como recorte de um determinado fato, num espaço e num determinado tempo nos remete aos cinco sentidos humanos. Uma foto, uma imagem nos faz lembrar de um cheiro, de um som, de um gosto, de texturas, nos transmite cores, nos faz ultrapassar os limites do que ela em si representa.
Pode contar uma história, um momento. Reflete os sinais da idade ou a falta dela, um sentimento, uma expressão de alegria, tristeza ou dor, um choro, um sorriso. Dela se cria um começo, um meio e um fim. Forja-se uma situação. Recorda-se. Se (re)conhece um lugar, uma pessoa, um objeto, somente aquilo que lhe é tangível, pois como disse, a fotografia remete aos cinco sentidos, seja preta e branca ou colorida, ela por si só é material, pois a sensação, só tem quem estava de fato naquele determinado espaço e tempo do registro.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Imagem, Arquivologia e História

A Arquivologia define como documento qualquer “registro de uma informação independente da natureza do suporte que a contém” (PAES, 1986, p. 8). A partir dessa definição, documento é livro, folheto, revista, relatório, fita magnética, disco, microfilme, etc ..., ou seja, todo material escrito, cartográfico, cinematográfico, fotográfico e sonoro.

Entretanto, o mesmo autor define documento de arquivo como “aquele que, produzido e/ou recebido por uma instituição pública ou privada, no exercício de suas atividades, constitui elementos de prova ou de informação” (PAES, 1986, p. S), ou, no caso de arquivos privados, como “aquele produzido e/ou recebido por pessoa física no decurso de sua existência” (PAES, 1986, p. 9).

Desse modo, o que irá caracterizar o documento de arquivo é seu caráter de organicidade e de proveniência e não suas características físicas. O documento de arquivo não tem valor por si só, mas o adquire dentro de um contexto, de um todo orgânico. Ele não pode ser desmembrado e disperso entre os documentos de outras instituições ou pessoas físicas. Deve ser sempre mantida sua ordem original e de proveniência. O documento de arquivo só tem significado se reunido num todo que irá explicar e justificar sua existência

A história tradicional considerava os documentos escritos como única fonte de consulta para a pesquisa histórica. A partir da Escola dos Annales, em 1929, o campo da pesquisa se amplia e a história passa a considerar como documento, segundo Lucien Lefebvre, “tudo o que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve ao homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem” (CARDOSO, 1989, p. 43). O que ocorreu, a partir da Escola dos Annales, foi um alargamento da definição do termo documento até então restrita à documentação escrita.

Atualmente, documento se refere não apenas ao documento escrito, mas também ao visual, ao oral, ao magnético, atingindo uma amplitude semelhante ao conhecimento humano. Esta verdadeira revolução documental, segundo Glénisson, acentuou-se a partir da década de 60 e perdura até os dias atuais, quando a tecnologia fez emergir,novos tipos de documentos. O avanço tecnológico e o surgimento de novos suportes exigem do historiador um domínio de técnicas de interpretação cada vez mais diversificadas e específicas.

A história nova de caráter científico irá identificar novos objetos e métodos, ampliando quantitativa e qualitativamente os horizontes da história tradicional. A história das mentalidades encontrará espaço nessa nova concepção de história, incluindo o imaginário e a iconografia.

A história tradicional estudava os fatos únicos. Na história nova, assim como na Arquivologia, os fatos são explicados pelo todo, pelo contexto em que estão inseridos. Nenhum fato ou ato histórico existe isolado; eles aparecem sempre no conjunto do processo histórico. Podem ser vistos e examinados isoladamente,mas funcionam em relações estruturadas, articulam-se com todos os componentes da realidade, conformam-se ao todo do sistema real (RODRIGUES, 1969, p. 31).


Atualmente, não existem controvérsias, para a História ou para a Arquivologia, com relação ao valor da imagem como documento. Segundo Maria Lúcia Cerutti Miguel, os arquivos deixaram de ser exclusivos depósitos de atos oficiais resultantes de atividades econômicas ou administrativas. Tornaram-se instituições destinadas a recolher, organizar, conservar e tornar acessíveis os documentos da memória (...) Memória captada não mais nos acontecimentos, mas no tempo longo, menos nos textos e mais nas palavras, nas imagens e nos gestos (...) (MIGUEL, 1993, p.123).
 
SILVA, Maria Leonilda R. da, A imagem na Arquivologia e na História. In. Arq. & Adrn., Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 47-55, jul./dez. 1998.